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Fundos de venture capital comemoram primeiros resultados com startups


por Strider

Por Danylo Martins | Valor

Com experiência em desenvolvimento de softwares e duas startups criadas entre 2005 e 2012, o engenheiro elétrico Luiz Tângari enxergou no agronegócio potencial para aplicar esse conhecimento. Sem nenhum contato mais próximo com o setor, mas com disposição para empreender em uma área ávida por tecnologia para melhorar produtividade, ele criou, em 2013, a Strider, startup de agricultura de precisão dedicada ao monitoramento de pragas. O negócio se fortaleceu em 2014, com aporte da Barn Investimentos.

A evolução foi célere. De cem clientes em 2015, hoje a startup atende 2 mil, entre propriedades rurais no Brasil e em países como EUA, México, Bolívia e Austrália. Não demorou muito para a Strider chamar a atenção da gigante Syngenta. A multinacional suíça anunciou, em março, a compra da empresa. Depois de ver o faturamento quase triplicar em 2017, a Strider — que segue como uma empresa separada da Syngenta — prevê crescer 250% neste ano, diz o CEO Luiz Tângari.

A venda da Strider à Syngenta foi comemorada também pelos investidores. Entre eles, a Barn, que apostou na startup quando o negócio dava seus primeiros passos. A gestora fez sua “saída”, ou seja, vendeu a participação na empresa.  Em pouco menos de quatro anos de investimento, o retorno atingiu 16 vezes o montante aplicado na startup, conta ao Valor Flavio Zaclis, sócio-fundador da Barn Investimentos. Foi a primeira “saída” do fundo criado pela Barn em 2013, e acabou compensando um investimento mal sucedido, segundo Zaclis.

Mas nada que fuja aos padrões do venture capital: apostas que dão resultado acima do esperado costumam contrabalançar investimentos que ou geram perdas ou ficam no zero a zero.

Casos como a Strider e o aplicativo 99 — vendido à chinesa Didi Chuxing em janeiro — sinalizam um período de “colheita” no mercado brasileiro, segundo investidores e especialistas em startups. Nos próximos anos, a tendência é que mais negócios despertem interesse de grandes empresas. Isso porque fundos de venture capital costumam ter prazos de dez anos, sendo que alguns estão prestes a completar esse ciclo. “Todo o plantio foi feito e agora é o momento de ter uma safra de ‘saídas’”, diz Bruno Rondani, CEO do movimento 100 Open Startups.

Criado em 2007, com R$ 100 milhões de patrimônio oriundos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Banco do Nordeste (BNB), o fundo Criatec 1 investiu em 36 empresas, com aportes de R$ 1,5 milhão a R$ 5 milhões. Sob gestão da Inseed e da Antera, o fundo está em período de desinvestimentos — metade do portfólio já foi vendido, e a expectativa é terminar o ciclo de “saídas” em 2019, diz Gustavo Junqueira, sócio da Inseed Investimentos.

A mineira Rizoflora, que recebeu aporte do fundo em 2008, foi vendida à multinacional Stoller em agosto de 2016. A startup atua no controle de nematoides, vermes microscópicos que atacam as raízes das plantas. “Quando investimos, a empresa ainda era um laboratório na Universidade Federal de Viçosa”, observa Junqueira. Cresceu, amadureceu e rendeu frutos ao ser adquirida pela Stoller: em oito anos, os recursos aplicados pelo Criatec foram multiplicados em cinco vezes.

Já a Geofusion, empresa de sistemas de geolocalização, nasceu como uma consultoria em 1996, mas ganhou fôlego para crescer em 2009, quando passou a desenvolver softwares de geomarketing na nuvem. Recebeu aporte do Criatec em 2011 e, quatro anos depois, levantou R$ 35 milhões em uma rodada com participação do fundo de private equity DGF Investimento e do Intel Capital, fundo da companhia de tecnologia. Após crescimento médio da startup de 45% ao ano, o Criatec vendeu sua participação, com retorno de sete vezes o montante investido, conta Junqueira.

A perspectiva de retorno é positiva para as 18 startups que restam no portfólio, com destaque para Magnamed, Cianet, Nanovetores, Imeve e RPH. “Temos expectativa concreta de multiplicar o capital investido por mais de dez vezes, algumas delas com negociações em andamento”, diz. Segundo ele, o ecossistema brasileiro se desenvolveu e os empreendedores estão mais bem preparados. “É uma evolução grande.”

Evolução que Romero Rodrigues, fundador do Buscapé e hoje sócio da Redpoint eventures, acompanhou de perto. Otimista, ele prevê boa colheita nos próximos anos. São sementes plantadas em 2010, por exemplo, que tendem a gerar frutos a partir de 2019. “De lá para cá, foram oito anos ininterruptos de investimento no ecossistema, sem redução de fundos ou investidores”, explica. Só no ano passado, as startups brasileiras receberam US$ 859 milhões em aportes, quantia que representou 45,4% dos investimentos em novatas na América Latina, segundo a Associação Latino-Americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca, na sigla em inglês).

A tese da Redpoint eventures é investir cedo nas startups e permanecer com os fundadores até o fim, ou seja, quando ocorrer uma saída estratégica ou um IPO. O primeiro fundo, de R$ 130 milhões, investiu em 25 empresas, com a maior parcela dos aportes realizados em 2015 e 2016.

A previsão é ficar como sócio das startups por sete anos, em média. Por enquanto, o fundo não teve saídas. “Algumas companhias do portfólio estão em estágios avançados. Tem uma fornada para sair de coisas muito bacanas”, conta Rodrigues.

Com 38 empresas ativas no portfólio, a Kaszek Ventures vendeu participação em seis startups, entre elas, as brasileiras Love Mondays e eOtica. A primeira foi comprada pela americana Glassdoor; a segunda, adquirida pela francesa Essilor, que se uniu no ano passado ao grupo italiano Luxxotica. Sem revelar detalhes sobre o retorno obtido com os investimentos, Hernan Kazah, co-fundador da Kaszek Ventures, enxerga uma trajetória muito positiva para o ecossistema brasileiro de empreendedorismo. “Em nossos primeiros anos como fundadores do Mercado Livre, os empreendedores não tinham onde ir para obter conselhos ou capital”, lembra.

A gestora carioca de private equity DXA Investments, fundada em 2012, aposta em pequenas empresas, com no máximo R$ 5 milhões de Ebitda (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Com um fundo de US$ 200 milhões e em fase de captação do segundo, a gestora investiu em sete empresas. Dessas, a Zee.Dog — de produtos para cães — saiu do portfólio em fevereiro. “Neste caso, foram cinco anos e meio de investimento, que deu um retorno de 12,4 vezes”, relata Oscar Decotelli, CEO da DXA Investments.

Leia a matéria original no Valor Econômico.

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