O aplicativo ganha a lavoura

O agricultor Luiz Pradella é dono de uma fazenda de 4.000 hectares na cidade de Luiz Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, quase na divisa com Tocantins. Até pouco tempo, ele usava a experiência de uma família que trabalha no campo há décadas e dos engenheiros agrônomos da consultoria que contrata há anos para tomar todas as decisões na administração de suas plantações de milho e soja – da hora de plantar à colheita. Mesmo com essas ferramentas, nem sempre as escolhas eram as melhores para a produtividade. Um dos momentos mais críticos, diz Luiz, era a hora de aplicar defensivos agrícolas – na plantação de soja, eles respondem em média por 36% dos custos. “Tínhamos nosso método, mas ele tinha falhas. Poderia ser mais preciso”, diz.

Desde o final de 2014, Luiz passou a adotar o Strider, um aplicativo para tablets que ajuda a programar e fazer o manejo sobre como o controle de pragas é feito na lavoura. Na fazenda de Pradella, a unidade de cultivo, ou talhão, é de 500 hectares. Antes do Strider, um profissional – chamado pragueiro – ia para o talhão e retirava algumas amostras de pragas de lugares aleatórios do terreno. A conta sobre o uso de agroquímico era feita em cima da média de doenças e insetos encontrados e o produto era aplicado em todo o talhão de maneira uniforme.

O Strider possibilita que menos defensivo seja usado porque faz o georreferenciamento de onde cada amostra de praga foi retirada. Dessa forma, o agrônomo pode fazer o controle exato de quanto defensivo deve ser usado para cada pedaço de plantação. “Agora sei exatamente onde está o problema e quanto devo aplicar de defensivo em cada região”, diz Pradella. Ele gastava cerca de 125 dólares por hectare com inseticidas. “Esse custo foi reduzido em algo entorno de 25% a 30%”, diz.

O Brasil é o maior mercado para defensivos agrícolas no mundo. Em 2014, foram mais de 12 bilhões de dólares, cerca de um quinto do mercado mundial. São muitos os fatores que podem fazer tudo dar errado. Se a aplicação de defensivos demorar muito para acontecer ou for feita com muita antecedência, pode ser inútil. Se a quantidade usada for menor do que a ideal, o tratamento das pestes também não será efetivo, enquanto se for usado muito defensivo, os custos da aplicação podem corroer o lucro do produtor – e a saúde dos consumidores.

Foi de olho nesses números que o Strider surgiu, em 2013 em Belo Horizonte. Foi ideia de três sócios, Luiz Tângari, presidente da empresa, Gabriela Mendes e Carlos Gonçalves. Tângari foi presidente da Aorta, a maior empresa de criação de aplicativos móveis do país até 2012, quando foi comprada pela Ponto Mobi, à época do grupo de mídia RBS. Passou a atuar como consultor até que topou com um projeto no setor de agricultura. “Vi uma oportunidade de empreender em um setor onde há ineficiência em várias áreas e onde um produto feito no Brasil pode ser exportado para todo o mundo. Na Aorta, crescemos muito, mas era difícil ser uma empresa global”, diz Tângari. Ele investiu 500.000 reais no início da empresa. Em 2014, a Barn Invest aportou 5 milhões de reais na empresa.

No Brasil, o Strider maneja 1,2 milhão de hectares de pouco mais de 140 clientes e pode ser usado tanto para grãos, como soja e milho, como para frutas e hortaliças. O software tem foco em propriedades acima de 2.000 hectares. O potencial de mercado no Brasil é de 30 milhões de hectares, ou quase o estado do Maranhão – pouco menos da metade da área destinada a agricultura no país. O preço médio cobrado é de dez reais por hectare por ano.

Embora haja muito espaço para crescer, o avanço é difícil. “A maioria dos agricultores nunca assinou um cheque tão grande para comprar um software”, diz Tângari. Com a compra, os produtores ganham tablets preparados para o trabalho no campo e com o Strider instalado para distribuir entre seus funcionários e explicações sobre como o software funciona. Na safra 2016, que termina em julho, a startup deve faturar 4,5 milhões, mas o plano é chegar a 15 milhões no ano que vem, com 500 clientes.

A principal tática para impulsionar esse crescimento, além do fôlego nas vendas dentro do Brasil, é a entrada em novos mercados. O principal deles é o dos Estados Unidos, o maior expoente da agricultura mundial.

Rumo aos EUA

Em abril, depois de um ano de testes, o Strider foi eleito pela Texas Agrilife, uma espécie de Embrapa do estado americano, a ferramenta oficial para a safra de 2016, o que deve acelerar o crescimento da startup no país. O Texas é o segundo maior mercado de agricultura nos Estados Unidos. Só no estado, a área possível para o Strider é de 20 milhões de hectares, ou dois terços do potencial de mercado no Brasil todo. A ferramenta já gerencia cerca de 25.000 hectares no estado.

Para financiar o crescimento, o Strider captou no começo de maio uma nova rodada de investimentos vinda dos fundos Monashees e Qualcomm Ventures. O valor não foi divulgado, mas é estimado em 10 milhões de reais de acordo com uma pessoa próxima ao negócio. Além da tentativa de ganhar os mercados americano e brasileiro, o dinheiro deve ser usado para melhorar o produto. O Strider investe para deixar de ser apenas uma ferramenta para controle da aplicação de defensivos para virar um gerenciador da fazenda, com ferramentas de agricultura de precisão que ajudem o produtor do plantio até a colheita.

O problema é que, ao contrário do manejo de defensivos, nessas outras áreas o Strider não é pioneiro. Nos Estados Unidos, já existe um punhado de outras startups tentando usar big data para vender produtos para fazendeiros. A mais famosa é a Farmlogs, que diz ter sob seu manejo 20% de toda a safra de agricultura intensiva americana, ou 15 bilhões de dólares em produção anual. Nesse sentido, a entrada no Texas foi estratégica. “As outras empresas focam os estados do Centro-Oeste, nós vamos focar nos estados do Sul, onde a agricultura é mais parecida com a brasileira, porque não neva”, diz Tângari. Algumas grandes empresas do setor agrícola também têm iniciativas parecidas na área de agricultura de precisão. A Monsanto, por exemplo, comprou a Climate Corporation por 1,1 bilhão em 2013.

O mercado para softwares para controle operacional de fazendas faturou cerca de 2,75 bilhões de dólares no mundo em 2015 e deve chegar a 4,2 bilhões em 2020 de acordo com a consultoria Research and Markets. “Começar pelo Sul é uma boa estratégia. Mas, no final das contas, o produto tem que ser melhor que os que já estão disponíveis no mercado americano”, diz José Carlos Hausknecht, da consultoria MBAgro. Os americanos costumam dizer que o Texas não é para forasteiros. A Strider vai tentar romper essa máxima.

(Gian Kojikovski)

 

23/05/2016
Fonte: Exame